Arco (2025), e pensamentos sobre trabalho humano
- Milo

- 7 de abr.
- 5 min de leitura
No mês passado, assisti ao filme Arco (2025, dir. Ugo Bienvenu), uma produção francesa. Sempre é um deleite de assistir longas metragens de animação 2D, é algo que está cada vez mais raro. No começo do ano também assisti Amélie et la métaphysique des tubes (2025, dir. Maïlys Vallade and Liane-Cho Han), o que me dá esperança nas produções francesas, pois é outro filme que gostei muito e provavelmente vou falar sobre ele no futuro aqui no Parquinho.
Relembro de Arco em uma sala de aula de uma faculdade profissionalizante. Vejo o céu branco acinzentado, uma situação comum pra quem vive em Porto Alegre, principalmente nesse período transitório do outono. A persiana cinza bloqueia minha visão dos prédios também acinzentados do centro histórico da cidade. Penso na criança inexistente de um futuro distante e provavelmente também inexistente. Com certeza inexistente, na verdade.
Será que ele poderia levantar voo e manipular o espaço-tempo no universo, na realidade em que vivemos? Porque o filme não propõe um viajante no tempo visitando a nossa realidade da primeira metade do século XXI, mas propõe uma viagem no tempo também para o futuro, mas um futuro da Terra que provavelmente não vamos alcançar. Não consigo decidir se gosto da ideia ou não de pensar que aquele futuro que é passado não é algo alcançável para o mundo, o tipo de sociedade e o sistema em que vivemos atualmente.
O ambiente principal em que o filme se passa, aparenta ser uma cidade de médio porte, arborizada, suburbana, num período indo para o final do século XXI se não me engano. Um ponto narrativo importante da trama é o uso de androides para diversas tarefas cotidianas e trabalhos comuns da nossa realidade, como manutenção de redes elétricas, quedas de árvore, bombeiros, polícia, babás (ou pais?) e professores. Esse último foi algo que me deixou muito reflexivo sobre a construção do mundo de Arco e trabalho humano, e se eu concordava com essa atribuição do ensino infantil para robôs.

É importante aqui pensar que o trabalho também é só um trabalho, porém o trabalho de ensinar outras pessoas sempre carrega um peso maior do que o trabalho de um padeiro ou de um ilustrador ou até de um médico – acredito que a medicina também tenha suas peculiaridades. E tenho culpa nisso também, muita gente considera o trabalho pedagógico como algo maior que o trabalho em si, uma vocação, um dom, uma bondade para o mundo e a sociedade, sendo o sacrifício e a dificuldade e a paciência, qualidades necessárias para o ato de lecionar. Tudo isso é considerado algo heroico, algo suprahumano, para fora do indivíduo que ensina (principalmente quando os estudantes são crianças, eu diria). Logo, pensando nessa crença quase indiscutível, percebi que tinha em mim que o trabalho do professor seria algo estritamente humano, que deve ser elaborado e apresentado por um humano. E essa crença se mostrou muito relevante quando senti um desconforto incrível quando assisti Arco e todos os professores eram androides.
Pensando a nível individual, qual seria a profissão dos sonhos? O que as pessoas aspiram a fazer e a ser? Conheço muitas pessoas e também considero senso comum que pessoas que cursam licenciatura gostam de ensinar e gostariam que essa fosse a sua ocupação. No sistema em que vivemos atualmente, é uma classe trabalhadora que ganha pouco dinheiro e trabalha muito, porque muitos entendem que o prazer que a pessoa sente ao trabalhar na sua vocação é a recompensa em si. Ironicamente, dentro de um espectro de profissões "chatas" e "legais", dentro de uma fatia de mercado com conhecimento a nível superior, parece que quanto mais "chato" é o trabalho, maior é a remuneração monetária, em uma estranhíssima equivalência diretamente proporcional. Ora, se o trabalho envolve códigos para sistemas de operação de empresas multinacionais, ou o trabalho é administrativo em uma repartição pública que lida com processos trabalhistas, ou o trabalho é mapear e definir a disposição de um jardim de hélices de energia eólica, se essas ocupações são "chatas", então deve existir algum tipo de recompensa para o indivíduo que tem a capacidade e a vontade (ou a obrigação) de fazê-lo.
Então, no mundo de Arco, algumas dessas incongruências do trabalho "chato" são resolvidas, até também do trabalho perigoso e do trabalho desgastante e ininterrupto, que são os trabalhos de segurança pública e de cuidar de crianças, respectivamente. Porém, não me parece lógico a substituição do ser humano professor pelo professor robô, se considerarmos a vontade do ser humano: quais seriam as possibilidades do que fazer assim que fossem resolvidos os trabalhos que não necessitam necessariamente a ingenuidade humana, como questões que são necessárias para a manutenção da sociedade – como disse anteriormente: os trabalhos de tarefas cotidianas, perigosas, muitas vezes processadas de forma rígida e, bem, robótica?

No livro Bullshit Jobs, David Graeber apresenta vários relatos que as pessoas compartilharam sobre suas experiências com o trabalho. Eu provavelmente vou falar mais a fundo sobre esse livro no Parquinho no futuro, mas o que quero apontar sobre esses relatos é que alguns deles justamente falavam sobre como essas pessoas gostariam de ser professores e terem profissões que não são tão bem remuneradas. No entanto, são obrigadas, para poder pagar as contas e sobreviver, a cumprirem trabalhos toscos e sem utilidade nenhuma. Trabalho esse que não constrói nada, que não avança em nada, e em que a pessoa que se vê obrigada a fazer esse trabalho inútil e não tem possibilidade de mudança porque o trabalho paga muito bem para a pessoa construir planilhas e listas que ninguém irá consultar – e muito resumidamente e em minhas palavras, essa é a definição de bullshit job apresentada por Graeber em seu livro.
Toda essa reflexão me fez questionar na construção do universo de Arco o que é considerado importante, quais as vocações que essas pessoas do século XXII tem, no que trabalham e o que contribuem para suas comunidades e o sistema que vivem. Não fica claro o que os pais de Iris trabalham, mas dá a entender que é um trabalho importante em que passam muito tempo fora da cidade em que moram. Qual trabalho será esse, em que é necessário a influência humana e não apenas o trabalho de um androide? O que é importante o suficiente para ser feito em sua plenitude, com sacrifícios, inteligência puramente humanas?
Por isso tenho dificuldade em saber se essa sociedade futura, imaginada por Bienvenu, é algo que gostaria que nós como humanidade aspirássemos a alcançar. O que vale a pena fazer? O que faz da vida algo que vale a pena ser vivida? Eu acredito que todos devemos trabalhar em algo, dentro da capacidade e da limitação de cada um. Também acredito que, se a tecnologia avança o suficiente para retirarmos a necessidade do ser humano de trabalhar em tarefas perigosas, repetitivas e administrativas, devemos fazê-lo. A partir daí o que faríamos então? Talvez essa seja a falha do universo de Arco e a similaridade com o nosso, ainda não sabemos dizer ao certo o que pode ser feito por uma máquina e o que deve ser feito por um ser humano.


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